A história de quando viajamos com minha avó morta

Esta história poderia ser uma crônica sobre a família que ressignificou laços no ano novo; ou a vez em que minha filha caçula desceu trinta vezes por um tobogã aquático; ou ainda uma história sobre as vantagens de se hospedar em uma estabelecimento “all inclusive” com pizza no jantar todos os dias. 

Mas não. Prefiro contar a história do ano novo que passamos com minha avó morta em uma pousada às margens do Rio Paraná. Parece estranho, mas não tanto, se você considerar que Pedro Almodóvar comanda a minha vida. Sob esta ótica, fica mais fácil aceitar este fato que realmente aconteceu comigo.

Tudo começou com um fim. No caso, o fim da minha vó Emília, que faleceu depois de 99 bem vividos anos.

Vó Emília era uma velhinha fofa de humor sofisticado e altas habilidades para o jogo de buraco. Ela amava festas com comida boa, histórias e risadas. Comemorar o ano novo era uma das suas celebrações preferidas. Depois que completou 90 anos, filhos e netos não sabiam quando seria a última vez que celebrariam a data com ela, por isso, instintivamente, a reunião familiar do fim do ano passou a ser uma enorme tradição.

Em 2017, após passar muito tempo acamada, Vó Emília “descansou”. No primeiro ano novo pós-morte, minha família ficou meio perdida e decidiu fazer uma programação ousada: passar o réveillon em uma pousada às margens do Rio Paraná. A hospedagem incluía diária completa por cinco dias e uma festa de ano novo com direito a fogos de artifício, ceia  e baile. Para nós, acostumados a lidar com uma super idosa de cama, parecia uma boa oportunidade de finalmente não fazermos nada. 

Na época eu trabalhava como repórter de um jornal e, como toda jornalista, era a última a chegar nos combinados familiares. Nosso check-in seria às 14 horas do dia 28 de dezembro, horário em que consegui chegar à cidade dos meus pais para encontrar a turma e seguirmos viagem até o Rio Paraná, o que levaria aproximadamente mais uma hora e meia. 

Minha mãe, chamada de Cactus pelos irmãos por causa de seu humor volúvel, já estava soltando fogo pelas ventas por causa do meu atraso. Meu tio Google (chamado assim porque sempre tem respostas para tudo, mesmo que sejam erradas) discutia com meu pai sobre quem deveria ir dirigindo. E minha tia Breaking News (chamada assim porque sempre sabe as notícias familiares antes de todo mundo) tentava decidir em qual carro seria menos perigoso embarcar, visto que Google não enxerga e meu pai tinha tido uma crise de labirintite naquele dia. Todos os personagens citados tinham mais de 70 anos. Completava a turma minha prima Julia, jornalista como eu e filha da Breaking, que rapidamente decidiu viajar no meu carro, onde iriam também meu marido e minhas duas filhas, à época com 11 e 16 anos. 

No meio da confusão de malas e viajantes septuagenários, encontrei meu primo Conrado no corredor do apartamento da minha mãe. Tomei um susto pela presença inesperada e perguntei: “você vai também?” Ao que ele respondeu com a maior naturalidade: “não! Só vim trazer a vó!”

Meu mundo caiu. Como assim? Vó Emília tinha morrido há alguns meses, seria nosso primeiro ano novo sem ela e foi difícil para todos aceitar o fato. Não tinha motivo para aquela piada. Mas aí ele apontou uma urna em cima da mesa: “são as cinzas dela, o pessoal decidiu espalhar no Rio Paraná.”

Não entendi bem a ideia, visto que todos tinham combinado que o melhor era espalhar os restos mortais no sítio do meu pai. Mas, assoberbada pela ansiedade de entrar logo no carro e finalmente aproveitar a folga de fim de ano, aceitei. Desta forma, colocamos a urna junto com as bagagens e partimos para a pousada Pau D´água, que tinha outro nome mas renomeamos assim porque somos uma família que gosta de fazer piadas que ninguém entende.  

Chegamos ao destino e nos dividimos em dois apartamentos. Cactus, Breaking, Google e meu pai ficaram em uma das casas e nós, os mais jovens, em outra. Vó Emília ficou placidamente depositada em cima da pia do nosso apartamento. Se estivesse viva, teria amado ver o entra e sai das netas e bisnetas indo e voltando para as piscinas, para o restaurante, para a sala de jogos e até mesmo para as margens do Paranazão. Com certeza iria aproveitar todas as refeições, menos o jantar, visto que jantava apenas leite e pão antes das 18 horas. Também teria entrado na água apenas UM dia só para dizer que usufruiu todas as atrações da viagem. 

Mas enfim, ela não estava mais entre nós. Por isso, ficou guardada em cima da pia enquanto os dias foram passando naquele clima de férias em pousadas familiares. Café da manhã exagerado, fila no almoço (o que irritava Google sobremaneira), crianças brincando, adolescentes se escondendo e rodízio de pizza no jantar TODOS OS DIAS, o que encantou demais minha caçula Clarice, a aventureira, que desceu 30 vezes pelo toboágua da pousada em um só dia, quebrando todos os recordes do estabelecimento, segundo os próprios monitores.

Celebramos o Ano Novo na ceia da Pau D’Água, com direito a frutas, pernil, farofa, mesa de doces (que desapareceu em poucos momentos) e uma garrafa de espumante enorme que meu pai tinha guardado especialmente para a data. Aproveitamos o baile que começou com clássicos dos anos 50 e terminou com funk. Como boa mãe, deixei as meninas pularem de roupa da piscina. Voltamos para os apartamentos animados com a nova experiência festiva e nos encontramos com ela, Vó Emília, no mesmo lugar em que a deixamos. O que despertou em mim e Julia, suas netas, uma dúvida: “a ideia não era jogar as cinzas?”

No dia seguinte, o último na pousada, decidimos que era hora de ter a famigerada conversa com os filhos da minha avó morta. Por isso, reunimos Cactus, Breaking e Google na sala de espera da administração da Pau D’Água e demos um ultimato: era hora de nos desapegarmos da Emília. No início eles relutaram, disseram que seria complicado descer até o rio, apontaram milhões de dificuldades…Mas eu e Julia, prevendo uma sucessão de outros anos novos com a urna na bagagem, fomos enfáticas: vamos fazer isso. 

O dono da pousada entendeu nossa angústia e propôs uma solução. Ofereceu sua kombi e um funcionário para nos levar até a água. Eu e minha prima aceitamos prontamente. E foi assim que seguimos em uma perua toda enfeitada para finalmente espalhar as cinzas da minha vó. Foi um momento emocionante e sui generis, pois, como não somos religiosos, não sabíamos bem o que fazer e revezamos entre choros e risadas diante de uma situação tão inusitada.

E assim as cinzas da Vó Emília adormeceram nas águas do Rio Paraná – Foto: arquivo pessoal

Clarice, a aventureira, se ofereceu para entrar na água e jogar as cinzas, mas Google, o mais mimado pela mãe, decidiu que faria as honras ele mesmo. Desta forma, o mais velho e a mais nova da turma entraram no rio e espalharam os restos mortais de Vó Emília. Breaking tentou filmar o momento, mas no calor da emoção não percebeu que a câmara frontal estava acionada. Nosso único registro da cerimônia, portanto, é um close de minha tia chorando. 

Entramos de volta na kombi com a sensação de dever cumprido. Clarice narrou com detalhes como era a textura das cinzas de uma avó cremada, começamos a relembrar momentos felizes que passamos com ela e tudo parecia se encaminhar para a superação quando Google, o desconfiado, levanta uma hipótese: “acho que ‘roubaram’ parte da mamãe, pois não é possível que uma mulher inteira tenha rendido SÓ aquele punhado de cinzas.”

E aí começou uma discussão acalorada sobre como são feitas cremações, o volume de um corpo transformado em cinzas, se reaproveitam o caixão ou queimam junto e até mesmo sobre a possibilidade dos dois terem enfiado a mão em uma urna com a mistura das cinzas de todas as pessoas cremadas no mesmo dia. A resposta? Não temos. Só sei que minha vó Emília teria amado saber que, após sua morte, continuamos o legado de nos reunirmos nas festas de fim de ano para discutirmos sobre temas surreais, o que, no final das contas, é o que nos faz família!