Cólica muito forte não é normal! Conheça os sintomas da endometriose

Cólicas fortes podem indicar endometriose – foto: Pixabay

Cólica menstrual muito forte, dor durante ou depois da relação sexual e inchaço abdominal são alguns dos sintomas mais comuns da endometriose. O médico ginecologista Frederico Corrêa, doutor em endometriose pela Universidade de São Paulo (USP), explica que a doença pode ser incapacitante e consegue atingir os pontos mais importantes de avaliação de qualidade de vida de uma pessoa, mas é comumente subestimada pois, culturalmente, a cólica é entendida como algo natural na vida da mulher.

Corrêa, além de atender pacientes em seu consultório e dar aulas na Universidade de Brasília (UNB), dedica-se ao projeto Evip – Endometriose e Vida Plena, que tem a proposta de disseminar informações qualificadas de profissionais com conhecimento técnico, científico e multidisciplinar para mulheres com endometriose. As informações são divulgadas gratuitamente pelas redes sociais de Corrêa e do projeto Evip. Além disso, ele realiza a jornada Endometriose e Vida Plena, com profissionais de diversas áreas – como proctologista, psicóloga, nutricionista, fisioterapeuta, professora de ioga e meditação, acupunturista, urologista, psiquiatra e personal trainer – e cujo objetivo é transformar a vida das mulheres diagnosticadas com endometriose com conhecimento e informação.

”O que percebo, depois de mais de 22 anos atendendo mulheres, mais de 30 mil atendimentos e mais de 1500 cirurgias, é que a doença é devastadora para a vida de muitas pacientes. Levar informação é a forma mais fácil, simples e barata para promover saúde”, defende.

Jornalista passa por 12 médicos até receber diagnóstico

A convite das firminas, o médico Frederico Corrêa respondeu uma série de questões mais comuns sobre endometriose. Confira a entrevista e espalhe conhecimento científico para que mais pessoas saibam que é possível viver com qualidade de vida apesar da endometriose. 

O que é a endometriose?

É uma doença benigna, inflamatória da pelve feminina, caracterizada pela presença do endométrio fora do útero. O endométrio é a camada mais interna do útero e quando esse tecido semelhante ao endométrio está fora do útero, chamamos de endometriose. Existe uma confusão com adenomiose, que ocorre quando o endométrio infiltra a musculatura do útero. A endometriose acomete mulheres jovens no período reprodutivo. Em até 70% dos casos, os sintomas começam na adolescência, antes dos 20 anos,  e atinge 10% das mulheres no período reprodutivo, entre a  primeira e a última menstruação. No Brasil, a estimativa é que se tenha de 6 a 7 milhões de mulheres com endometriose. É um número muito relevante e por se tratar de uma doença que, apesar de benigna, traz muito sofrimento. 

Quais os principais sintomas da endometriose?

O principal sintoma é a cólica menstrual um pouco mais forte, que pede uso de medicamentos para dor, como antiinflamatórios e analgésicos mais potentes e com intensidade que muitas vezes leva a mulher ao pronto socorro e interfere na vida habitual. É uma cólica que atrapalha a escola, o trabalho… Outro sintoma é a dor profunda no fundo vaginal durante ou logo após a relação sexual, assim como inchaço abdominal, dor para defecar, diarreia ou obstipação mais intensa no período menstrual, dor para urinar e sangramento nas fezes e urinas, que são menos comuns, mas podem existir. 

Qual o impacto da endometriose para a vida das mulheres?

A endometriose afeta a maioria dos critérios usados para avaliar qualidade de vida de uma pessoa. Afeta fisicamente, pois provoca dor intensa e muitas vezes incapacitante. Afeta o lazer, porque a pessoa com dor crônica deixa de se divertir e fazer coisas habituais. Afeta o trabalho e o desenvolvimento profissional, pois muitas acabam tendo que faltar muito e por isso não conseguem desenvolver a carreira, não conseguem promoção e acabam ficando desempregadas em função do absenteísmo e do presenteísmo. Muitas mulheres não conseguem ter uma vida sexual normal por causa da dor, o que causa problemas de sexualidade. Outro problema importante é a infertilidade, pois 50% das mulheres têm infertilidade e isso é um aspecto relevante no que diz respeito à qualidade de vida. O fato de ter dor crônica faz com que muitas mulheres desenvolvam quadros de alterações emocionais importantes, principalmente ansiedade intensa e, em algumas, depressão e síndrome do pânico.

Há muita falta de informação sobre endometriose? 

Há muita falta de informação e falta de conhecimento sobre a doença, tanto por parte da população como por parte dos profissionais de saúde de uma forma geral. Isso talvez esteja relacionado à  questão dos sintomas. Como o principal sintoma é a cólica menstrual e temos uma questão cultural de que a cólica é um evento natural que faz parte da vida das mulheres, a dor é encarada como algo normal, não é visto como sintoma de doença. Isso leva mulheres a ficarem com sintomas por anos até que se faça o diagnóstico. No Brasil, um estudo mostra que se passam em média sete anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico, podendo chegar a 12 anos, dependendo dos sintomas que a mulher desenvolve. O problema do diagnóstico é grande porque a cólica não é valorizada pela paciente, muitas vezes adolescente, pela família, pelos colegas e até pelos médicos, que comumente dizem que é normal e melhora com a idade. Muito embora haja pessoas dedicadas a divulgar informações sobre endometriose, ainda vemos mulheres sofrendo, a doença evoluindo e chegando a situações dramáticas como perder rim, comprometer o intestino ou não conseguir ter filhos. 

A mulher com endometriose sofre discriminação?

É comum que as mulheres com endometriose passem por situações complexas de discriminação, tratamento irônico.. São chamadas de preguiçosas, acusadas de não querer trabalhar ou ir para a escola… O sintoma não é valorizado por quem convive com a mulher, é visto como frescura, desculpa para não fazer as coisas do dia a dia.

Como é o diagnóstico de endometriose?

É feito por meio de consulta com ginecologista que faz avaliação de sintomas, exame físico e deve solicitar exames de imagem que são: ultrassonografia transvaginal para mapeamento da endometriose e a ressonância magnética da pelve com contraste. Ambos permitem identificar as lesões, onde se localizam, o tamanho e as características que vão indicar o melhor tratamento para a paciente.

Quais as orientações para a paciente que recebe o diagnóstico de  endometriose?

Ela deve ser orientada em três aspectos importantes: o primeiro é que se trata de uma doença crônica que vai se resolver ou “curar” com a menopausa. É raro que se desenvolva após a menopausa. Em segundo lugar, é uma doença que envolve a infertilidade, então, é necessário um planejamento reprodutivo: a mulher precisa refletir se quer ter filhos, quando e quantos filhos, pois às vezes é necessário fazer a preservação da fertilidade com congelamento de óvulos para engravidar no futuro. Por fim, além do tratamento medicamentoso com hormônio e cirurgia, que são os principais tratamentos, há vários outros tratamentos complementares que ajudam muito na melhora dos sintomas e devem ser informados. São eles fisioterapia pélvica, nutrição adequada – com diminuição de alimentos anti inflamatórios e aumento do consumo de antioxidantes – atividade física, prática de meditação e mindfulness, apoio psicológico, apoio social, acupuntura, algumas técnicas da medicina tradicional chinesa, como ingestão de chás… Encontrar grupos de apoio é bem relevante para mulheres e pode ter repercussão interessante no tratamento. São muitas possibilidades além de hormônios e cirurgia. Muita coisa do tratamento depende da mulher, pois implica em mudar a alimentação, fazer exercícios, cuidar da mente .. Isso é muito relevante. Outra informação importante que sempre aparece nas dúvidas das pacientes: a endometriose é uma doença benigna, não há evidências de que possa virar câncer.