Violência obstétrica: quando seu corpo não te pertence mais

Live mensal das Firminas abordou desafios para o parto humanizado e necessidade de conquistar o respeito ao corpo da mulher

Inaugurando a programação mensal de lives do nosso portal, a firmina Aline Melo entrevistou a doutora em Ciências e doula Deborah Delage.

O tema “Violência obstétrica e os desafios para o parto normal no Brasil” trouxe importantes questões acerca de um termo cunhado não há muito tempo pelas mulheres.

A discussão evidenciou o quanto este momento, quando respeitado, pode ser uma experiência empoderadora, mas quando tratado com violência, torna-se uma das vivências de maior vulnerabilidade e tensão que uma mulher pode experimentar.

Delage explica que antes de tudo é importante definir que a violência obstétrica é uma violência contra a mulher.

“Eu costumo dizer, e outras amigas militantes também, que se fosse com o pênis de um homem, ninguém faria essas atrocidades. Os profissionais de saúde pergunta dez vezes, pede permissão para chegar ali, para ver se ele tem fimose, se tem uma infecção, nossa pede mil licenças. Mas se for para mexer na vagina e na vulva de uma mulher, ninguém pede licença, nem mesmo quando está acompanhando o trabalho de parto dessa mulher”, exemplificou Delage. 

Tomar consciência

Infelizmente, é muito comum que a violência obstétrica seja vivida sem nem mesmo ser considerada como agressão.

Aline comenta que cresceu ouvindo comentários de familiares ou conhecidos, com opor exemplo “de que não se deve gritar no parto, porque as enfermeiras não gostam”, aquele clássico, “na hora de fazer não doeu”, ou criticar a mulher pelo peso, por já ter muita idade, por já ter muitos filhos. “São diversas situações que naturalizam essa violência”, considera.

Delage concorda: a violência é praticamente a regra. E a mulher sofre com isso desde o momento da gravidez até o ciclo final, quando aborta ou tem o parto.

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“São violências estruturais, não podem ser consideradas como algo acidental ou um caso à parte. E a mulher às vezes não sabe que passam por essa violência, assim como muitas não identificam a violência doméstica”, disse a doula, que ainda comenta que, exatamente por isso, “é habitual que as mulheres digam que o parto é ruim, quando na verdade, infelizmente, ela ainda não chegou a descortinar esse problema, a violência no parto”.

Além disso, há violências bem explícitas, com procedimentos dolorosos não baseados em evidências, e que por muitas vezes é prejudicial à saúde da mulher.

Segundo a Delage, muitas dessas intervenções não são nem mesmo informadas às mulheres, e na imensa maioria das vezes ninguém pede o consentimento delas.

Rede de apoio

A firmina Aline Melo levantou o ponto de que as mulheres são, principalmente quando são vítimas, desacreditadas ou silenciadas, considerando ainda que as instituições da justiça são terrenos machistas e hostis para as mulheres;

Como orientação, Delage sugere que as mulheres busquem grupos de apoio, mesmo os virtuais, e outras iniciativas como associações de doulas [ela recomenda a Doulas RJ, de seu estado, e outros canais de atendimento via plantão para as que terão parto no SUS.

Mulher deve buscar rede de apoio para garantir seus direitos. Na foto, a gestante acaricia barriga com as mãos de um companheiro
A mulher deve buscar redes de apoio para garantir seu planejamento de parto – Foto: Dayvison de Oliveira Silva/Pexels

“É importante primeiro conhecer as opções de assistência obstétrica da região, buscar relatos de gestantes locais, na internet, se limitado pela pandemia, como o grupo de rede social ‘Cesárea? Não, obrigada’, por exemplo”.

Mudanças efetivas

A violências obstétrica faz parte de um problema tão estrutural, que, conforme avalia Delage, somente estrutura física adequada não garante que o parto seja de fato respeitoso e humanizado.

Ela explica que desde o nosso nascimento é assim como conhecemos o processo. Os partos continuam acontecendo com mulheres deitadas subjugadas, numa posição que dificulta o parto, com pessoas manipulando seus corpos, gritando com elas, realizando manobras sobre suas barrigas, sobre seu corpo, todos procedimentos que são contra indicados e que, portanto, são configuradas totalmente como violência obstétrica.

“Isso não mudou desde o relato da minha mãe. Claro que a realidade melhorou para algumas. Mas é isso, melhorou para as poucas mulheres que conseguem ter acesso a algum tipo de assistência paga. Então, sem demonizar a ala dos médicos e das médicas, estamos falando de um sistema, que precisa de outra estrutura, com formação das pessoas e desconstrução da violência de gênero, para que mulheres e pessoas grávidas parem de passar por situações vexatórias, dolorosas, agressivas e violentas simplesmente porque são mulheres”, defendeu.

Contexto de pandemia

Aline apontou que, de acordo com um estudo de junho de 2020 – do periódico médico International Journal of Gynecology and Obstetrics – quase 80% das mortes de gestantes com Covid-19 no mundo são daqui do Brasil. E que conforme noticiado pela Globo News, houve um aumento de 345% de grávidas contaminadas, com 223 vítimas fatais.

Delage resumiu, como resposta aos dados estatísticos, que “em tempos de trevas, as mulheres são sempre as primeiras atingidas”.

“As mulheres acabam sendo um grupo muito vulnerável, sobretudo neste cenário em que não tivemos uma política pública eficiente, com medidas coordenadas nem mesmo para evitar o espalhamento do vírus. Ficou escancarado o quanto a assistência obstétrica sempre foi ruim no país. Com pré-natal raso, que muitas vezes não seguem protocolos desenvolvidos. As mulheres são mal atendidas e mal cuidadas. Muitas foram suspensas na flexibilização da quarentena. E de fato há complicações específicas para crianças e gestantes com a Covid-19”.

Parto não é sofrimento

Um dos grandes mitos é o de que o parto é um grande sofrimento. “Costumamos ouvir ‘ah, tal coisa é tão difícil que parece um parto’”, elucidou Delage.

A doula explicou que a maioria das mulheres e dos bebês não precisa de intervenção alguma no procedimento do parto, e que podem viver o momento apenas com suporte de acompanhamento de sinais vitais e outros parâmetros.

Outro mito é o de que ‘você vai ficar larga, ninguém vai te querer’. O que já é ruim, tendo em vista que a mulher é colocada como objetivo, ela passa a ser, depois do parto, menos valiosa, como se de fato algo mudasse sua fisiologia.

Mulheres lutam contra violência obstétrica
Mulheres em protesto no RJ contra a violência obstétrica – Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Delage ressalta que as más consequências para a mulher, decorrentes do parto, têm relação com a má assistência.

“Dependendo da violência até pode ocorrer alguma mudança fisiológica, como a episiotomia, que tende a afetar a vida sexual da mulher”.

Parir com autonomia faz bem

Delage explicou que o principal benefício para a mulher que tem o parto respeitado é o direito de “poder se expressar, manifestar a posição que quiser, de usar seu corpo do jeito que acha ou sente ser melhor”.

“Quando ela atua no parto, do ponto de vista físico e psicológico, é muito poderoso. Além de ser muito melhor para a recuperação física depois. O que é muito diferente da recuperação cirúrgica da cesárea”, pontuou, sem deixar de considerar que a cesariana, para casos específicos, pode servir para salvar vidas, mesmo não sendo o indicativo prioritário.

Mais saúde para o bebê e para as gerações futuras

Para o bebê, o parto normal e natural auxilia no amadurecimento. Delage explana que a própria descida do parto beneficia a saúde do bebê em vários aspectos.

“A compressão do corpo facilita a saída de líquido dos pulmões por exemplo, além de preparar o corpo do bebe para ser colonizado por bactérias do corpo da mãe, importantes para o sistema imunológico”, destacou.

Para o bebê, o parto normal traz inúmeros benefícios também e pode evitar problemas de saúde futuros. Na imagem, bebê nasce via cirurgia cesariana - Foto: Jonathan Borba/Pexels
Para o bebê, o parto normal traz inúmeros benefícios também e pode evitar problemas de saúde futuros – Foto: Jonathan Borba/Pexels

Ter esse contato com a colônia de bactérias da mãe impacta em menos incidência futura de doenças metabólicas como diabetes, colesterol e hipertensão.

“Esse trio de doenças tão comum está ligado com a forma como as pessoas vêm nascendo nas últimas décadas”, alertou.

Por fim, a conversa voltou para algo que fundamentalmente reflete sobre a saúde pública e a forma com que mulheres e bebês são tratados. Delage reforça que “a grande crise pelo qual passamos incide sobre todas as mulheres, e que já vínhamos perdendo direitos ao longo dos últimos anos. Mas temos que seguir por esses direitos, porque é pela vida das mulheres”, concluiu.

Se você perdeu esta conversa com a firmina Aline Melo e a doutora em Ciências e doula Deborah Delage, basta acessar ao vídeo abaixo:

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