Por que não conseguimos proteger Néia da tentativa de feminicídio?

Independente e cheia de vida, Néia foge do estereótipo das vítimas de violência doméstica, mas não conseguiu escapar de uma tentativa de feminicídio que a deixou tetraplégica 
Cidnéia: o antes e depois da tentativa de feminicídio – Fotos: arquivo Pessoal

Em abril de 2019, Cidnéia Aparecida Mariano, conhecida como Néia, foi agredida pelo ex-companheiro Emerson Henrique de Souza, que a asfixiou até deixá-la inconsciente e então a abandonou em uma estrada rural na região de Londrina (PR). Socorrida por uma mulher que passava pelo local, ela conseguiu sobreviver, mas amarga as consequências da tentativa de feminicídio. Ficou tetraplégica, perdeu a fala e depende de terceiros para viver. 

Néia tem quatro filhos e filhas, uma delas com Emerson. Quando foi agredida, tentava uma separação amigável para preservar o relacionamento da criança com o pai. Emerson, por sua vez, não aceitava a separação e, por isso, agrediu Néia com o objetivo de matá-la. Ele foi julgado no início de 2021 e condenado a 23 anos e 4 meses de reclusão por tentativa de feminicídio com todas as agravantes apresentadas na denúncia do Ministério Público: qualificação do feminicídio, motivo fútil (tentativa de separação) e meio cruel (esganadura). 

Néia, em virtude das agressões, perdeu a fala. Durante o julgamento, ganhou voz pelo movimento “Justiça para Neia”, formado por integrantes da Frente Feminista de Londrina, parentes e amigos da vítima. A condenação de Emerson, na opinião da irmã de Neia, Silvana Mariano, foi a justiça possível  e atendeu a um clamor da sociedade. Não traz de volta, entretanto, a vida que ela poderia viver se não estivesse condenada a permanecer na cama.

Justiça para Néia

Para ajudar com as despesas referentes ao tratamento de Neia, o movimento mantém uma campanha de arrecadação. No vídeo, a apresentadora Fernanda Viotto, de Londrina, conta o que aconteceu com Neia e o motivo de pedirem ajuda. A campanha também está nas redes sociais. Chave pix para ajudar: [email protected] .

Silvana é socióloga, professora do departamento de ciências sociais da UEL (Universidade Estadual de Londrina), estudiosa das questões de gênero e militante feminista. Ao enfrentar na própria família o problema que combate há décadas, ela afirma que sente uma “enorme impotência”. “Estou há anos esbravejando, discutindo, publicando e a violência doméstica  continua se reproduzindo nos mesmos moldes. Estudar e militar nessas frentes não nos prepara para lidar emocionalmente com a experiência, mas ajuda a dirigir as respostas para que haja uma reformulação efetiva das políticas públicas”, acredita. 

A história de Neia

Caçula de cinco irmãs, Néia era uma mulher ativa, extrovertida e independente financeiramente. Antes de Emerson, ela já tinha passado por outros relacionamentos e conseguiu finalizá-los sem crises. Fugia, portanto, do estereótipo atribuído às vítimas de violência doméstica, quase sempre associadas a mulheres frágeis, dependentes emocional e financeiramente de seus parceiros. Néia, porém, mantinha ilusões sobre a importância da família e queria preservar o relacionamento de Emerson com a filha. 

“Ela permaneceu em risco para tentar preservar essa relação familiar. Não fosse isso, poderia ter tomado outra iniciativa, mas ficou tentando convencê-lo a sair de casa”, lamenta Silvana, destacando que esse momento do pedido de separação em geral traz grandes riscos para mulheres em relacionamentos com homens violentos.  E questiona: “é fundamental que sejamos mais críticos ao que representa a ideia de família. Valorizar essa instituição por si só é construir uma jaula em que se colocam mulheres e crianças.”

O machismo que mata 

Imagem de Nino Carè por Pixabay 

A história de Néia infelizmente não é uma exceção entre os casos de feminicídio. Silvana analisa que o algoz da irmã, como muitos outros, não aceitou a possibilidade de a mulher colocar um fim na relação e se relacionar com outros homens. Ao se sentir dono de Néia, julgou-se também no direito de tentar matá-la. “Para evitar mortes decorrentes desse sentimento de posse dos homens sobre suas companheiras ou ex-companheiras é preciso que haja transformações culturais e mudanças em diversas instituições, com papel importante da educação. O Brasil quer proibir que se fale de gênero nas escolas e isso só alimenta a ideia de que homens podem decidir sobre a vida e a morte de mulheres. O papel dos meios de comunicação também é fundamental”, defende, lembrando que a Lei Maria da Penha veio para mudar esse conceito de que o homem é dono da mulher. 

Silvana lamenta, também, que Neia esteja desassistida. “Pelos modelos internacionais de direitos humanos, a resposta dos Estados à violência contra a mulher tem três dimensões: prevenção, punição e reparação, sendo que este último ítem inclui também a assistência às sobreviventes, por exemplo, fornecida pelo réu e pelo Estado. “No caso da Néia, quase dois anos depois da agressão, estamos brigando com o Estado e ainda não acessamos serviços adequados para o quadro dela.”

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