Pesquisadores do coronavírus continuam sem vacina

Muitos dos cientistas e pesquisadores que trabalham na linha de frente do combate à Covid ainda não foram vacinados

Muitos dos cientistas e pesquisadores que trabalham na linha de frente do combate à Covid ainda não foram vacinados. Essa é uma informação que pode causar surpresa, já que os governos anunciaram a vacinação prioritária para profissionais da saúde. Os pesquisadores são mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos que não constam na lista de prioridades da vacinação. Mesmo estando na linha de frente, frequentando hospitais e laboratórios de estudo do coronavírus, eles não têm vínculo empregatício por serem cientistas bolsistas.

A biomédica, pesquisadora e doutoranda da USP, * Rosa, 30 anos, denunciou em sua conta no Twitter: “…cientistas seguem sem vacina! Não somos considerados profissionais porque não existe conselho ou sindicato de cientistas e isso é uma exigência para vacinar profissionais de saúde. Continuamos nos hospitais desenvolvendo vacina, desenvolvendo tratamentos e SEM VACINA (sic)”. A partir dessa denuncia fomos averiguar a situação desses cientistas.

*Marcia, pesquisadora e aluna do mestrado do Instituto de Ciências Biomédicas (IBC) da USP, relata que foi a diversos postos de saúde e todos se negaram a vaciná-la.

Fui a seis postos de saúde e não consegui ser vacinada”. Um dos seus orientadores, Nilton Barretos dos Santos, que também era bolsista do pós-doutorado, morreu de Covid no dia 4 de maio deste ano. Ele estava aprovado para o PhD em um dos hospitais mais prestigiados dos EUA, o Hospital Mount Sinai.

Quando o Nilton foi intubado tive uma crise de pânico, falei que só voltaria depois que fosse vacinada. O Nilton não resistiu e mesmo sofrendo pressões, não pretendo voltar até que nossa segurança seja garantida com a vacinação”. Se tivessem priorizado os pesquisadores, ele não teria passado por tanto sofrimento” lamenta *Marcia.

É muito revoltante, somos pesquisadores da SARS-Cov-2, e não somos prioridade para vacinação porque somos bolsistas e não funcionários” concluiu.

A falta da vacinação em pesquisadores bolsistas não é um problema exclusivo das universidades e laboratórios de pesquisa do Estados de São Paulo. Recebemos denúncias de diversos Estados brasileiros.

*Júlia, 33 anos, doutoranda e pesquisadora de Belém do Pará, que trabalha com amostras de pacientes com Covid, também não está inclusa na vacinação prioritária. “Sigo trabalhando normalmente e sem previsão de vacinação. A exigência é ter um registro de conselho ativo. Também sou biomédica, mas não pago o conselho porque não atuo na área. Por ser pesquisadora também deveria ser vacinada”, argumentou.

Alguns pesquisadores, mesmo não trabalhando diretamente com o coronavírus, trabalham em hospitais, laboratórios e institutos de pesquisa e correm risco diariamente em seu local de trabalho. Pesquisam ao lado de funcionários vacinados, mas não tiveram o direito de receber a vacina porque seu vínculo é de bolsista pesquisador.

No Instituto Butantan a situação é a mesma. “Pouco tempo depois do Butantan adquirir as vacinas Coronavac, todos os funcionários próprios e terceirizados, das mais diversas áreas, foram vacinados, sem exceção. Os únicos que não receberam a vacina foram os pesquisadores bolsistas, apesar de frequentar o laboratório e se expor da mesma maneira que os funcionários e em alguns casos, até mais”, relatou *Pedro, doutorando de 28 anos.

Paramos de trabalhar uns meses por conta da fase roxa e vermelha lá no começo. Depois não paramos mais, nem mesmo nas situações mais complicadas da pandemia. Temos prazos para concluir nossas pesquisas.
Eu já peguei Covid no início, agora essas novas variantes me preocupam
” completou *Henrique, 24 anos mestrando e pesquisador do Instituto Butantan.

Respostas dos órgãos públicos de saúde

Questionamos a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, que nos enviou a seguinte nota.
O PEI (Plano Estadual de Imunização) esclarece que todos os trabalhadores de saúde que estão atuando em serviços de saúde já foram ou podem ser vacinados contra Covid-19. Os profissionais da área da saúde precisam comprovar o vínculo com o serviço de saúde em que atuam e buscar orientações com os municípios onde residem e trabalham, uma vez que as Prefeituras são responsáveis por organizar as estratégias de vacinação.”

A prefeitura de São Paulo disse “que segue as orientações técnicas do Programa Nacional de Imunizações e do Programa Estadual de Imunizações. De acordo com a Lei 6259/75, Título II, Artigo 3º, cabe ao Ministério da Saúde a elaboração do Programa Nacional de Imunizações, que definirá as vacinações, inclusive as de caráter obrigatório.”

A prefeitura de Belém/PA comunicou que, “O governo Federal que embasa nosso plano de imunização não incluiu os cientistas como grupo prioritário. Por esse motivo eles ainda não foram contemplados”.

O Ministério da Saúde informou que “a seleção de grupos prioritários para a vacinação, estabelecidos pelo Plano Nacional de Operacionalização da Vacina (PNO) contra a Covid-19, segue critérios compactuados com várias entidades e considera a vulnerabilidade para as formas mais graves da doença.

Mesmo não havendo, no momento, um grupo prioritário específico no PNO, definido como cientistas ou pesquisadores, estes profissionais poderão ser vacinados como integrante de outros grupos, priorizados por faixa etária ou como trabalhadores da saúde, por exemplo, conforme calendário de vacinação dos grupos e em alinhamento às etapas da Campanha.”

*Os nomes das pesquisadoras e dos pesquisadores foram trocados para que não sofram retaliações.

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