Em busca de cura para filho, mãe se especializa em linha canábica e cria empresa

Mulher mostra frasco com cannabis como remédio - Linha Canábica
Barbara Arranz – Foto: divulgação

Para expandir a terapia com a planta, a biomédica se especializou em cursos, criou empresa de produtos de cannabis e mantém contato com famílias de autistas para orientação

“Desde pequena, sonhava em atuar na área da saúde. Eu não sabia como, mas tinha certeza que queria trabalhar nesse ramo”, diz Barbara Arranz, 33, que teve um de seus filhos com Síndrome de Asperger. E foi a partir dessa notícia que ela deu um passo importante em sua vida, acreditou em si mesma e mudou a vida dos dois completamente. Depois de usar cannabis para o tratamento de seu menino, hoje a Bá, como é conhecida, é dona de uma empresa com linha de uso medicinal da erva.

“Depois de ter três filhos, eu estava 22 anos, senti uma vontade absurda de voltar a estudar, e que aquele era meu momento, tinha que acreditar em mim. Então prestei vestibular, passei com uma boa nota e fui para o ramo da biomedicina”, explica Barbara.

E foi durante o curso de biomedicina que Barbara teve a notícia sobre o diagnóstico de seu terceiro filho Raul, a Síndrome de Asperger – transtorno de desenvolvimento que afeta a capacidade de se socializar e de se comunicar com eficiência.

“Quando recebemos o laudo, na hora pensei no tratamento com a cannabis, porque eu já pesquisava muito sobre o assunto e me encantava. Na adolescência, já tinha ouvido falar do uso medicinal da erva, pois uma tia tratou esclerose múltipla usando essa terapia. No período da faculdade, eu estudava as patologias e cannabis. Não dei ouvidos para os outros métodos mais convencionais, dados pelos médicos, porque sei que aqueles alopáticos não seriam benéficos para a vida dele por conta dos seus problemas colaterais”, conta Barbara.

Nascimento da Linha Canábica

A biomédica conta que depois de ver o sucesso dos resultados com o uso da cannabis no tratamento do seu filho, sentiu que poderia ir além. “Após conhecer e me aprofundar na terapia dele, ver os efeitos positivos – acontecem entre 10 e 12 meses-, entender um pouco mais da planta, compreender as funções bioquímicas, e o que ela oferece, aí nasceu a Linha Canábica”, relata.

E Barbara começou pequena. “A empresa nasceu no dia 01/05/2019, no dia do trabalho. Foi a primeira vez que eu sai da minha casa com sacolinhas cheias de produtos da Linha Canábica dentro. Mas, em fevereiro de 2020, a linha ficou realmente conhecida, tinha atingido muitas pessoas. Mas a alavancada foi em 02/2020, pois foi quando eu cheguei na Espanha e continuo aqui para expandir ainda mais”.

Além de conhecer de perto os efeitos da cannabis, Bárbara se especializou. “Fiz cursos na Lear Sativa University, na Florida, para me aprimorar e trazer conhecimento sobre a planta a respeito do uso medicinal, sua interação com o nosso sistema endocarnabióide”, conta.

Linha Canábica – Foto: divulgação

A Linha Canabica cresceu e hoje de acordo com a fundadora, gera 100 empregos contando os terceirizados. São entre 45 a 50 pessoas hoje. Na Espanha está no nível de 30 colaboradores, isso fora os prestadores de serviços terceirizados.

“O autismo e a Linha Canábica têm uma ligação muito forte. Eu digo que a empresa veio de um laudo de autismo. Então, hoje a gente tem um grupo de WhatsApp com todas as mães e pais dos filhos que se tratam com a gente e que possuem o espectro autista. Temos uma ligação muito intensa com todos”, revela Barbara.

De acordo com a fundadora a biomédica, atualmente a empresa atende 120 pacientes autistas. “Tenho um caso em que o pai e o filho são autistas, um tipo de autistas severos com seus 35 anos. E também atendo crianças especiais desde seu primeiro ano de idade. Essa interação e proximidade que temos são muito legais”, conta.

Planta que traz cura e esperança

Barbara: Linha Canábica representa a desobediência civil de uma forma inteligente. Foto: divulgação

“A Linha Canábica é uma filha porque vem de uma planta feminina que traz a cura e a esperança. A Linha significa, para mim, a esperança: esperança de que o Brasil amadureça, esperança de que a população periférica tenha acesso ao medicamento, esperança para que haja uma restauração no país se tratando de tudo isso que a classe periférica passa. Acho que estamos precisando de uma reestruturação histórica. A Linha Canábica representa desobediência civil de uma forma inteligente. A Linha Canábica representa conteúdo, desmistificação, quebra de preconceito, aceitação. Linha Canábica é isso: é a minha filha mais nova”, finaliza Barbara Arranz.

Segundo estudo feito pelo polo de negócios de impacto cívico-sócio-ambiental CIVI-CO, o levantamento chamado “Cannabis é saúde” – que ouviu mil pessoas de todas as regiões do Brasil – concluiu que 70% da população apoia a chamada medicina canabinoide, e 76% das pessoas no Brasil já sabiam das possíveis aplicações médicas e terapêuticas da planta, contra enfermidades como epilepsia, ansiedade, insônia, depressão, câncer e dores em geral.

Cannabis em debate na Câmara

Na última quarta-feira (26) de maio, a Câmara dos Deputados realizou, por mais de quatro horas e meia, uma comissão para debater o cultivo da cannabis no Brasil, exclusivamente para uso medicinal, veterinário, científico e industrial, da Cannabis sativa – usada também para produzir maconha, sobre o Projeto de Lei 399/15para viabilizar a comercialização de medicamentos que contenham extratos, substratos ou partes da planta Cannabis sativa em sua formulação. Porém segue ainda sem conclusão por divergências de deputados e debatedores como familiares de pacientes que usam medicamentos ou que sofrem com dependência química, representantes de entidades favoráveis e contrárias à proposta, médicos com estudos sobre Cannabis com resultados positivos e negativos.

A Lei Antidrogas proíbe em todo o território nacional o plantio, a cultura, a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas, com exceção para aquelas plantas de uso exclusivamente ritualístico religioso e no caso de fins medicinais e científicos.

Já nos Estados Unidos, a autoridade sanitária, Food and Drug Administration (FDA) aprovou produtos oriundos da Cannabis. Outros 50 países autorizam o uso para fins terapêuticos.

No Brasil, a Anvisa não classifica os itens como medicamentos, mas autoriza a importação com receita médica e poderá avaliar a fabricação no País.

Com informações da Agência Câmara de Notícias.

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